obrunobarros
nada que valha a pena ser lido.the easy going guide to the galaxy
O joão era um cara com uma sorte peculiar. Peculiar porque ele não era nem sortudo, nem azarado, as coisas na vida do joão simplesmente aconteciam. Fico feliz de dizer que mais pro lado bom do que pro lado ruim, mas a verdade era essa: elas simplesmente aconteciam. Aprender matemática no colégio, passar no vestibular, o primeiro estágio, conquistar uma cocota, nada parecia difícil. Não que as coisas viessem sem esforço, mas o cumprimento de uma etapa reconfortava o joão a ponto do esforço ter parecido ínfimo.
Vendo assim, você provavelmente já desenhou o joão como um bon-vivant de primeira categoria, easy going ’till the end, mas nada disso. por mais que já tivesse percebido essa característica, o joão era um dos caras mais pilhados que eu já conheci. Tudo que ele planejava fora da rota padrão na vida de um adolescente era cercado de expectativa e devaneio. No sul do mundo, era disparado o cara mais encanado com o futuro.
Isso derrubava o joão de um jeito que ele precisou tirar férias. Mais que uma viagem pra conhecer o mundo o joão precisava urgente se conhecer. E ali, no caminho entre amsterdam e berlim, ele conheceu o duende-regueiro-da-filosofia-susse-do-melhor-deixe. E agora vem aquela parte em que você espera que eu diga que o joão voltou mudado, revigorado e astuto, mas vou ser obrigado a te dizer que o joão voltou o mesmo. A única coisa é que agora ele tem um brilho diferente no olhar, como se talvez, assim, sem querer, ele acreditasse que as coisas podem simplesmente, sei lá, acontecer.
PaoloNutini_NewShoes
so long, youth, and thanks for all the shit.
sentado no lucca (mais uma vez) agradeci à minha adolescência nerds pelo preconceito e maldade do high school. se tivesse sido diferente, eu poderia ter me tornado algo parecido com os alunos do positivo na mesa ao lado, ao contrário dessa pessoa sensacional que eu sou.
AlbertHammondJr._BlueSkies
it takes only 8 fingers and a thumb
Fui no lucca hoje e sentei na melhor mesa daquele lugar, bem ali depois da escada, do lado do banheiro. A namoradeira tem um estilo clássico, bem ‘casa de vó’. Sem falar que ela te abraça quando você senta. O mais perto que você pode ficar da boa senhora com ela a 400 km de você. Entre os dois expressos e três cigarros tirei um tempo pra observar a máquina no piso inferior. Lá ia ela, girando o café que aguardava ansioso pra ser moído. Engraçado olhar pro café naquela situação, sempre a mesma coisa, todos os grãos se comportando da mesma maneira. Todos há alguns minutos de supervalorizar uns 1000% depois de virar pó e ganhar um rótulo cheio de rococós.
Sem críticas ao capitalismo aqui, seria hipócrita demais da minha parte, até porque, imagino que pra um grão de café isso deve ser a realização de uma vida. Sentar sua bunda em pó na prateleira da casa de algum barista famoso ou de um pseudo-intelectual que usa óculos de armação grossa. E é bem aqui que surge o momento de reveleção: dentre todos aqueles grãos a caminho do sucesso um resolveu saltar fora do moedor, o che guevara da cafeína.
Entra aqui a questão fundamental dessa história toda: passamos a vida inteira tentando ser diferentes, tentando aperfeiçoar as nossas atitudes quando, na verdade, a gente só precisa ser igual todo mundo. Só precisamos ser ‘normais’ pra atingir um objetivo maior. Ou pra simplesmente não morrer de úlcera. O nosso café, por exemplo, trocou a vida de glória de agradar o paladar de alguém por uma vassoura, uma pá e uma lata de lixo. Vai morrer esquecido, moído não por uma máquina cromada e sim por um caminhão de lixo da prefeitura. Tomara que os urubus do lixão saibam apreciar um bom café.
BlocParty_LikeEatingGlass